
O El Niño atingiu em 24 de julho a intensidade jamais vista para essa época do ano, segundo a MetSul Meteorologia. As anomalias de temperatura da superfície do mar na Região Niño 3.4 do Pacífico Equatorial estão entre +2,1°C e +2,2°C, patamar de Super El Niño que nos episódios anteriores só foi atingido meses depois: em 1982-1983, apenas em 24 de novembro; em 1997-1998, somente em 3 de setembro; em 2015-2016, em 16 de setembro. Em 2026, chegamos lá em pleno julho.
Não é detalhe estatístico. Significa que o fenômeno ainda tem meses inteiros de intensificação pela frente antes do pico previsto entre outubro e dezembro, e a projeção mediana dos principais modelos climáticos aponta anomalia de +3,6°C no fim do ano, muito acima dos +2,75°C do El Niño mais forte já registrado. Modelos individuais chegam a projetar +4°C a +5°C, o que colocaria o evento de 2026-2027 como o mais intenso da história moderna dos registros iniciados em 1850.
Nesta edição do REP Box, reunimos atualizações no Brasil e no continente, o alerta que os oceanos e os megaincêndios europeus acendem para o segundo semestre, e a previsão região por região para as próximas semanas.
El Niño: o que está acontecendo agora?
O fenômeno não parou de ganhar força. A MetSul publicou em 24 de julho que jamais se viu um episódio de El Niño tão intenso em julho como o atual, e que os dados de modelos climáticos incorporados ao longo do mês reforçaram o indicativo de que este evento tem força jamais vista desde o começo das medições no Pacífico. Estael Sias, sócia-diretora da MetSul, resume o momento em uma frase: "é literalmente a história do clima do planeta sendo reescrita em tempo real."
O oceano acendeu o alarme
Além do El Niño, os oceanos globais entraram em uma sequência recorde que preocupa a comunidade científica. Segundo levantamento publicado pela MetSul em 26 de julho, a temperatura média global da superfície dos oceanos permanece em nível recorde há mais de 50 dias consecutivos, sequência inédita desde o início das medições modernas. A média global chegou a 21°C, valor extremamente elevado para uma medição que engloba praticamente todos os mares do planeta. Em setores do Mediterrâneo, a temperatura da água se aproxima dos 30°C, patamar tipicamente encontrado apenas em mares tropicais.
O dado importa por dois motivos técnicos. Primeiro: quanto mais quente a camada superficial do oceano, maior a evaporação e maior a quantidade de vapor disponível para alimentar sistemas atmosféricos, o que resulta em chuvas torrenciais, tempestades severas e ciclones tropicais mais intensos. Segundo: o El Niño não explica sozinho esse aquecimento. Ele intensifica um sistema que já estava aquecido antes de sua instalação, e a soma dos dois fenômenos configura ambiente sem precedentes para eventos extremos nos próximos meses.

O Sul do Brasil e o Cone Sul continuam sob tensão
Enquanto o El Niño se intensifica no Pacífico, o Cone Sul viveu na última semana uma combinação simultânea de eventos extremos que ilustra o padrão previsto para o segundo semestre. O Chile enfrentou novo temporal com chuva intensa, vento de até 100 km/h e neve, prolongando o rastro de destruição do rio atmosférico que decretou estado de catástrofe no país no início da semana anterior. A Argentina teve novo episódio de frio extremo, com a Patagônia registrando temperaturas próximas a -25°C. Nos Andes, a maior nevada em anos causou avalanches e soterrou animais.
O interior de São Paulo também não escapou. Uma frente fria provocou vendaval destrutivo em municípios do interior paulista, expandindo o padrão de eventos severos para além do território tradicionalmente sob risco. É a mesma dinâmica que MetSul alertou ao longo da semana: eventos extremos deixam de ser regionais e passam a atingir simultaneamente múltiplas áreas do continente sul-americano.

A Europa mostra o outro lado da mesma equação
Enquanto o Cone Sul enfrenta chuva e frio extremos, a Europa vive megaincêndios sem precedentes. Segundo análise da MetSul publicada em 26 de julho, França, Espanha, Portugal e Itália atravessam a terceira grande onda de calor do verão europeu de 2026, com temperaturas frequentemente acima de 40°C e vegetação em déficit hídrico severo. O fenômeno das chamadas "secas quentes" (estiagem impulsionada pelo calor extremo que retira umidade do solo e da vegetação em ritmo acelerado) transformou florestas em combustível. Incêndios avançam em velocidade que desafia os mais modernos sistemas de combate ao fogo.
O importante para quem gerencia risco no Brasil não é comparar territórios, é entender o mecanismo. O aquecimento global amplifica os dois extremos simultaneamente: chuva excessiva de um lado, seca extrema do outro. É o mesmo sistema climático produzindo os dois efeitos, e o Brasil enfrenta ambos os polos em regiões diferentes do próprio território ao longo do segundo semestre.

O que vem pela frente?
Segundo a MetSul, os efeitos do Super El Niño no Sul do Brasil se manifestarão como sucessivos eventos de precipitação extrema, numerosas enchentes com algumas de grande magnitude, e muitos temporais entre agosto e dezembro. Santa Catarina e Paraná, menos atingidos que o RS em 2024, entram agora como áreas de risco igual ou superior. No Centro-Norte, o padrão se inverte a partir de novembro: seca severa, ondas de calor prolongadas e favorecimento de incêndios florestais nas regiões do Matopiba, Goiás, Tocantins e Amazônia sul-oriental.
Previsão sobre El Niño por região do Brasil
Baseado na análise da MetSul Meteorologia publicada em 27 de julho de 2026.
Previsão El Niño: Sul (RS, SC, PR)
Semana começa com trégua parcial após passagem da frente fria da semana anterior, mas nova frente se aproxima do RS a partir de quinta-feira, com previsão de acumulados significativos entre sexta e domingo. Sinal do modelo europeu indica volumes acima de 100 mm em faixa que se estende de Porto Alegre à Serra Gaúcha. Paraná e Santa Catarina também com precipitação acima da média em curto intervalo. Risco de vendavais localizados e queda de granizo. → Leia a análise completa na MetSul
Previsão El Niño: Sudeste (SP, MG, RJ)
São Paulo em atenção após o vendaval destrutivo da semana anterior no interior. Nova frente fria traz chuva concentrada em áreas do centro-sul de Minas Gerais e norte do Paraná, com reflexo em algumas regiões do Rio de Janeiro. Volumes moderados na maior parte do Sudeste, mas com risco de precipitação intensa em curtos intervalos, especialmente na Grande São Paulo e no Vale do Paraíba.
Previsão El Niño: Centro-Oeste
Chuva escassa na maior parte da região nesta semana, dentro do padrão climatológico de julho. Mato Grosso do Sul e o extremo Sul de Goiás recebem alguma precipitação pela passagem de frente fria. A janela seca continua sendo temporária: a partir de novembro, o padrão do Super El Niño se inverte na região, com estiagem severa e ondas de calor prolongadas atingindo o Matopiba, Tocantins e sul do Mato Grosso.
Previsão El Niño: Norte e Nordeste
Chuva baixa ou escassa no Nordeste, com exceção dos litorais da Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas, onde volumes tendem a ser mais significativos. Na Amazônia, precipitação pontual em partes do Amazonas, Roraima e Acre, sem acúmulos expressivos. O alerta para essas regiões se intensifica no segundo semestre, quando a seca associada ao Super El Niño historicamente cria condições favoráveis a incêndios florestais e à queda dos níveis de rios navegáveis, com impacto direto sobre a cadeia logística amazônica.
Radar de Riscos
1. Super El Niño 4 meses adiantado é evento sem precedentes (MetSul Meteorologia, 24/07/2026)
O patamar de intensidade muito forte no índice ONI da NOAA (+2,0°C na Região Niño 3.4) foi atingido em 2026 quatro meses antes do que em qualquer outro evento do fenômeno já registrado. Nos episódios anteriores, esse patamar só apareceu em setembro ou novembro. O que isso significa para quem gerencia risco: a janela para revisar coberturas antes do pico (previsto para outubro-dezembro) está encurtando. Empresas que ainda operam com apólices calibradas para clima "normal" têm até agosto ou setembro para adequar limites, sublimites e cláusulas climáticas específicas antes do momento em que o mercado segurador entra em ciclo de aperto na renovação e capacidade limitada.
2. Oceanos acumulam 50 dias consecutivos de calor recorde (MetSul Meteorologia, 26/07/2026)
A temperatura média global da superfície dos oceanos permanece em nível recorde há mais de 50 dias consecutivos, com áreas do Mediterrâneo aproximando 30°C. Ondas de calor marinhas afetam biodiversidade, pesca, turismo e alimentam sistemas atmosféricos mais intensos. O que isso significa: o combustível energético para chuvas torrenciais, ciclones e tempestades severas está no maior patamar registrado. Programas patrimoniais em regiões costeiras, portos, terminais logísticos e operações agrícolas dependentes de umidade estabilizada precisam considerar essa variável no dimensionamento das apólices, especialmente na cobertura de Lucros Cessantes por evento climático em cascata.
3. Megaincêndios na Europa expõem o vetor esquecido (MetSul Meteorologia, 26/07/2026)
França, Espanha, Portugal e Itália enfrentam megaincêndios após terceira onda de calor consecutiva do verão europeu, com temperaturas acima de 40°C e vegetação em déficit hídrico severo. O fenômeno das "secas quentes" transformou florestas em combustível. O que isso significa: o Brasil enfrentará a mesma dinâmica no segundo semestre, mas em regiões diferentes do território. Enquanto o Sul recebe chuva excessiva, o Centro-Norte entra em seca severa a partir de novembro, com risco elevado de incêndios florestais em operações agrícolas, industriais em zonas de exposição e infraestrutura de energia e telecomunicações em áreas rurais. RC Ambiental e coberturas específicas para incêndio em áreas externas ao estabelecimento passam a ter peso relevante nessas regiões.
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Aqui na REP
A gravação do REP Talks | Super El Niño 2026 continua disponível para quem ainda não assistiu. Os principais recortes técnicos discutidos por Estael Sias sobre a intensificação do fenômeno estão sendo confirmados semana a semana desde o evento realizado em 8 de julho. Se você tomou decisão sobre programa corporativo nas últimas semanas sem revisar as coberturas climáticas, vale rever o que os especialistas apontaram.


